Conferência Portugal do Conhecimento

No dia 23 de Setembro de 2014 realizou-se em Lisboa, na Fundação Portuguesa das Comunicações, o terceiro evento público do projecto «Portugal Agora» – a conferência «Portugal do Conhecimento – Das competências à criação de valor».

O evento juntou um leque variado de oradores-convidados e participantes, com experiência nacional e internacional nas áreas da Ciência e Tecnologia, da formação de recursos humanos, da transferência do conhecimento para o mercado e das indústrias criativas. Em foco estiveram duas questões: perceber como potenciar a criação de valor com base na capacidade atual de Portugal nestas áreas e desenhar caminhos futuros.

 

O primeiro painel contou com a presença de Carlos Salema (Presidente do Instituto de Telecomunicações), José Manuel Fonseca de Moura (Investigador da Carnegie Mellon University, EUA), Marco Bravo (Diretor executivo do IC2 Institute da University of Texas At Austin, EUA), João Taborda (Responsável da Embraer), Telmo Faria (ex. Presidente da CM Óbidos), e Carlos Martins (da Opium e ex Diretor Executivo de Guimarães Capital Europeia da Cultura).

Depois da abertura por José Almeida Mota, da FPC, da apresentação do projecto «Portugal Agora» e da dimensão “Portugal do Conhecimento”, efectuada pelo seu coordenador, Miguel Leocádio, o 1º painel debateu «A Ciência e a Tecnologia na criação de valor», com moderação de António Granado, jornalista e professor universitário.

 

A primeira intervenção coube a Carlos Salema, que realçou a importância do financiamento público à atividade de investigação científica, salientando a igual importância do financiamento da investigação básica, impulsionada pela curiosidade e para a produção de novo conhecimento, e do financiamento da investigação aplicada, motivada pela resolução de um problema concreto. Destacou o conjunto de descobertas científicas, muitas delas financiadas por orçamentos públicos e sem motivação para aplicação no seu tempo, que nos últimos 100 anos vieram a moldar e revolucionar a sociedade em que vivemos. Não existiriam telemóveis, nem internet, nem outras tecnologias que estão no mercado se não tivessem ocorrido descobertas científicas de base há muitos anos (por exemplo, os feixes hertzianos, na altura longe de qualquer tipo de visão de aplicação).

Identificou como principais problemas para a dificuldade da transmissão de conhecimento das instituições de ensino superior para as comunidades a dimensão do mercado nacional, que torna a inovação tecnológica pouco sustentável na vertente doméstica, a existência de baixa tecnologia na generalidade das empresas, o que limita a capacidade/interesse em investir em inovação por parte do tecido empresarial, e a falta de fortes investidores em inovação no setor público, que possam assumir o papel financiador que os sectores da Defesa assumem noutros países.

Notou ainda que todas as ciências são importantes, em todos os casos, incluindo as ciências sociais, que reflectem sobre as pessoas e a sociedade. Promover a excelência implica investimento mais amplo para aumentar a população nos laboratórios – é preciso financiar um conjunto para que a excelência possa existir. 

Por seu lado, José Manuel Fonseca de Moura referiu-se às dinâmicas que estão na origem dos diferentes modos de investigação científica e desenvolvimento tecnológico. Recorreu à abordagem de Stokes para mostrar a importância da investigação básica, da investigação aplicada, dos casos em que ambas são desenvolvidas em simultâneo, e realçando a importância habitualmente esquecida de atividades conexas que suportam a investigação, como a recolha de dados, nomeadamente da observação da natureza, sistematização de conhecimento existente, entre outras, sem as quais não é possível avançar em novas dimensões da investigação.

 

Na sua opinião, deve ser cada vez mais procurada a simbiose entre aplicação e conhecimento – a ligação a empresas é importante. Mas ao nível da engenharia, por exemplo, o engenheiro que se forma terá um tipo de perguntas diferentes para responder ao longo do tempo e da evolução da profissão, e do mercado de trabalho. Em Carnegie Mellon é muito comum as empresas patrocinarem cursos de verão, com o objectivo de identificar os líderes de futuro.

Para Marco Bravo, as boas ideias não têm de se traduzir em inovação. Existem ideias brilhantes que nunca chegam ao mercado e ideias absurdas que atingem resultados inovadores inesperados, argumentou. O foco da inovação deve estar na execução e não nas ideias (que são importantes e existem em grande número). Em Portugal, o ciclo de inovação tem vindo a basear-se nas etapas de “acção” (mais) e “resultados” (menos). Mas as etapas mais importantes e habitualmente descuradas deste ciclo estão a montante: as atitudes e os comportamentos, que precedem as ações e os resultados. O centro do processo são as pessoas.

A propósito das ciências sociais foi ilustrado o caso de uma startup de Coimbra, cujo fundador é da área de história, tendo sido precisamente esse background que permitiu a criação do negócio: uma APP que permite ir a Londres orientando e contando a história dos locais, incluindo eventos e histórias famosas da cidade. Na Universidade do Texas, em Austin, há pessoas de áreas como, por exemplo, filosofia, a trabalhar em actividades de transferência de tecnologia. Funcionam como intermediários universidade/empresa, que entendem como as tecnologias se podem encaixar no mercado de consumidores.

 

 

 Na perspectiva de João Taborda, as necessidades de recursos humanos em instalações de produção avançada, como as instalações fabris da Embraer em Évora, são diversas, incluindo doutorados e sobretudo mestrados (para estudar problemas e encontrar soluções), mas também recursos especializados em operação de equipamentos críticos. São equipamentos que actuam sobre peças em estado avançado de produção e com custos muito significativos já incorporados, onde o erro implica consequências dramáticas. Os recursos humanos contratados têm recebido formação de especialização, envolvendo o Instituto de Emprego e parcerias com instituições de ensino (nomeadamente superior), com muitos casos de sucesso de requalificação profissional.

 

No contexto do financiamento público disponibilizado à investigação, a Europa é muito atraente por preconizar o modelo de consórcio nos fundos de investigação, para o desenvolvimento de aplicações a comercializar.

 

No debate final foi discutida também a promoção de competências profissionais no ensino superior e a maior adaptação de currículos às expectativas dos empregadores. Neste ponto, apesar de ter sido realçado que deveria existir uma gradual aproximação entre estas duas esferas, foram identificados os prejuízos de uma excessiva especialização dos diplomados de 1.º ciclo e da concepção de ofertas formativas apenas orientadas pela empregabilidade. Com efeito, foi destacado pelo painel que um grau de especialização muito elevado na formação superior faz com que as competências adquiridas fiquem obsoletas muito rapidamente, sendo mais aconselhado ministrar fortes formações teóricas numa fase inicial e permitir que a especialização surja por efeito do mercado de trabalho. Neste contexto foi apontado que uma formação prática não pode garantir as competências adequadas para todo o percurso profissional de um diplomado e que, ao passo que a ciência fundamental demora muito tempo a desactualizar-se, o ensino prático é mais limitado temporalmente.

Todos os oradores referiram que o exercício de separação entre a investigação teórica e aplicada é complexo, tendo sido apresentados diversos exemplos históricos de investigações essencialmente teóricas, cujas descobertas foram a base de diversas inovações técnicas. Foi consensual que existe uma intrínseca relação entre a inovação e a ciência fundamental, já que a inovação apenas pode suceder à acumulação de conhecimento teórico.

Da discussão realizada, surgiram as seguintes propostas:

  • As instituições de ensino superior devem fazer um esforço para calcular o impacto económico que têm nas diversas regiões. A existência desse tipo de métricas é relevante para a valorização do conhecimento no tecido envolvente e para captação de novas receitas.

  • A manutenção de financiamento público nas diversas áreas científicas e o recuo nas opções políticas de financiar apenas nichos reduzidos e excepcionais de I&D, opção que promove a destruição da massa crítica adjacente.

  • A promoção do ensino dual, com maior adaptação dos percursos escolares aos calendários do mercado de trabalho e com promoção de estágios integrados nos planos curriculares.

 

O 2º painel, que debateu «O novo papel das indústrias criativas», foi moderado por Vítor Belanciano, jornalista do Público.

 

Iniciou-se, após apresentação do moderador sobre os desafios do tema, com uma intervenção de Telmo Faria, que esteve mais de uma década à frente da Câmara Municipal de Óbidos. Este realçou o trabalho desenvolvido no plano da criação de riqueza, um eixo tão ou mais prioritário que o da contenção e controlo orçamental. De um orçamento anual inicial que rondava os 5M€ foi possível crescer até mais de 200M euros, com base num persistente trabalho de atracção de investimento e diversidade de actuação – agricultura e outras áreas mais tradicionais – e sobretudo através de uma nova estratégia de criação de um veículo ligado à economia criativa  (um projecto de transformação territorial). Houve um processo inicial de racionalização, mas foi sendo criado mais valor (riqueza, com redistribuição pelo território). Foram lançados desafios a empresas e áreas urbanas maiores para atrair mais gente criativa para Óbidos, o que ajudou a repensar o território.

O antigo autarca sublinhou o processo de fazer políticas públicas em torno das questões de economia (por contraste com o foco financeiro), com estratégias de eficiência inteligente. A economia criativa tem um lugar muito forte (ex. de Creative Britain). Os governos centrais organizam departamentos para modelo de políticas públicas, realidade muito distinta da que existe em Portugal. É no território que se podem experimentar novas políticas de inovação nas cidades, incentivando projetos e mobilização em torno dos fundos comunitários do Portugal 2020 e H2020.

 

Referiu ainda que as estruturas no território necessitam de ganhar massa crítica, com maior mobilização do capital criativo que já existe – trabalhar em rede – e com participação da opinião pública – não com os orçamentos participativos, mas fazendo com que a participação pública ajude a construir a cidade. É preciso fomentar o capital criativo e atrair pessoas criativas, alargando o centro de decisão da cidade para a comunidade. O cidadão deve participar na gestão da cidade.

 

Já Carlos Martins exemplificou a acção desenvolvida em Sta. Maria da Feira, enquanto vereador com o pelouro da Economia, Cultura e Desporto, que foi construída sob o desígnio da criação de valor social e económico e que poderia ter como base expressões estéticas, a cultura, o território, e a valorização das pessoas, entre outros. No projecto Guimarães – Capital Europeia da Cultura, deu continuidade a esta perspectiva de gerar valor a partir destes sectores, assumindo-se as cidades como agentes de transformação.

Nas suas palavras, é preciso distinguir 3 tipos de conhecimento: o científico/analítico, o sintético/tecnológico e o simbólico. Em Portugal não se costuma falar da dimensão da cultura e da criatividade. Em seu entender, o capital simbólico é um assunto que deve ser central. As diversas vertentes do conhecimento dependem todas das pessoas e do talento humano, que é factor sine qua non para a geração de valor económico.

Defendeu a urgência de trabalhar transversalmente estas áreas: a cultura e a criatividade na economia portuguesa, o turismo e a sua relação com outras indústrias e os efeitos de spill over. Adjectivou como grave a inexistência de uma diplomacia económica com base nas indústrias criativas, o que não promove a marca Portugal.

 

Ainda nesta linha, deu o exemplo do próximo ciclo de financiamento público, que foca 5 clusters: mar, saúde, moda, turismo, e indústrias criativas. Salientou que o acordo de parceria que estabelece o novo Quadro de Fundos Comunitários – Portugal 2020 – prevê, pela primeira vez, a articulação entre o tecido produtivo e a produção artística, valorizando a criatividade em Portugal com um eixo sobre saúde, bem-estar e território e indústrias criativas. É importante esse contexto, sendo que este assunto tem de ser trazido a outras agendas.

 

Aludindo ao papel transversal das indústrias criativas, citou o caso da Finlândia, onde os médicos experimentaram “receitar” o consumo de teatro, dança ou música, uma prática que permaneceu após uma capital europeia da cultura, tendo a taxa de sucesso dos actos médicos aumentado drasticamente. Mencionou potenciais áreas de projeto no quadro da relação entre cultura e inclusão social ou cultura e educação, sustentando que a fiscalidade deve ser catalisadora para a cultura e os financiamentos devem ser especializados. Salientou ainda que, se criar espaços e dinâmicas de consumo cultural já tem o seu nível de complexidade, a evolução para espaços de produção cultural é ainda mais difícil. Porém, deve ser esse o caminho. No caso de Guimarães, essa transição teve alguns resultados, declarou.

Nas suas observações finais, reforçou o papel do património imaterial – formas de expressão, etc. – afirmando que este é tratado com algum desdém em Portugal, o que já não sucede noutros países (uma democracia que ainda não lida bem com o seu próprio passado?). Será importante olhar para a memória colectiva, preconizou, admitindo que nesse campo ainda há muito trabalho por fazer no país. Não se deve simplesmente copiar, mas sim encontrar o caminho próprio para gerar valor social e económico. É crucial uma agenda nova e todos fazemos parte dela – Portugal é agora!