Criação de um cluster de serviços tecnológicos de suporte focados na exportação

Portugal é actualmente um país com condições muito propícias à implementação de serviços de base tecnológica. São já várias as empresas multinacionais que têm centros de competência fixados no país (e.g. Siemens, SAP, Vodafone) que prestam diferentes tipos de serviços (e.g. fábricas de software, serviços de suporte, manutenção remota), de forma remota às geografias onde se encontram presentes.

Estes centros representam já muitas centenas de postos de trabalho qualificados em Portugal.

No entanto, e tendo como principais objectivos (i) inverter o ciclo económico depressivo em que o país se encontra há alguns anos (ii) acelerar o processo de transformação do país para uma economia de base tecnológica e de elevado valor acrescentado e (iii) combater o elevado desemprego, importa que essas centenas de postos de trabalho se possam transformar em muitos milhares.

Para tal, e como condições de base, parece haver um conjunto de factores favoráveis à captação deste tipo de serviços para o nosso país:

  • Base de recrutamento de população jovem, qualificada e com formação em novas tecnologias;
  • Salários muito competitivos face ao resto da europa (mesmo em posições bastante qualificadas);
  • Conjunto de boas universidades e politécnicos que “produzem” mão-de-obra com boa formação;
  • País com excelentes infraestruturas de comunicação (e.g. 3G, fibra óptica);
  • População jovem com facilidade em comunicar em inglês (e mesmo noutras línguas);
  • País com boa qualidade e baixo custo de vida e com condições climatéricas favoráveis para atrair talento estrangeiro ou quadros de empresas clientes que participem na gestão de operações em nearshore
  • População com propensão para a adopção de novas tecnologias;

Neste sentido, parece pois haver condições de partida que se podem revelar decisivas no que toca à captação de investimento de multinacionais neste tipo de centros no nosso país.

Há, no entanto, limitações que será preciso ultrapassar e trabalho que deve ser feito para que Portugal se possa afirmar decisivamente como um player relevante neste tipo de serviços (como é por exemplo, o caso mais paradigmático conhecido na Europa, a Irlanda). Resumidamente, em termos de limitações, podemos observar:

  • Fiscalidade pouco atractiva (e muito instável), em comparação com outros players relevantes (e.g. Irlanda);
  • Forte competição por talento (nomeadamente com outros países de União Europeia);
  • Disponibilidade de recursos-humanos muito limitada num cenário de aumento da procura;
  • Sistema judicial extremamente lento na resolução de problemas e disputas;
  • Percepção de legislação laboral pouco flexível;
  • Portugal não é visto como um país tecnologicamente evoluído (a pequena dimensão do mercado e das empresas do sector contribuem decisivamente para tal);

Se questões como a instabilidade das regras fiscais e a ineficiência do sistema judicial são factores limitativos de fundo e transversais, que demorarão vários anos a serem resolvidos (partindo do principio que há vontade e energia para tal), há medidas que podem desde já ser tomadas e que poderão ter um impacto muito positivo ao nível do desenvolvimento da economia:

  • Formalização do cluster dos serviços de IT, através da criação de uma organização (eventualmente no seio da AICEP) que represente as empresas do sector e que fomente a colaboração entre si sempre que se justifique (e.g. lobbying, promoção internacional do cluster com presença em feiras e eventos internacionais)
    • Essa organização deve também funcionar como facilitadora, após a tomada de decisão de investimento, garantindo o apoio na condução de todos os procedimentos legais e administrativos necessários à implementação da empresa (uma “via verde do investimento”);
  • Dinamização de uma campanha internacional focada em países desenvolvidos que posicione Portugal como um país de eleição para o estabelecimento deste tipo de serviços (e.g. campanhas em revistas internacionais como Economist, Monocle, televisões de notícias internacionais, patrocínio de congressos do sector)
  • Criação de um programa de reconversão de jovens desempregados (e.g. com formação na área das humanidades) em técnicos de IT
    • Para este programa pode ser aproveitando a rede de politécnicos actual;
    • Estes cursos de formação devem ser ministrados obrigatoriamente em língua inglesa;
    • Devem ser feitos acordos com empresas fabricantes de tecnologia para que sejam conferidas certificações aos participantes;
    • Os currículos dos cursos deverão ser definidos em conjunto com as empresas do sector
  • Estabelecimento de mecanismos que permitam às universidades e politécnicos acordarem com empresas do sector currículos específicos de formação para os seus colaboradores / potenciais colaboradores e de acordo com as necessidades específicas;
  • Implementação de centros de negócio completamente infraestruturados que possibilite às empresas instalarem-se numa lógica “plug and play”;

Como nota final refira-se que no desenvolvimento de clusters costuma ser dado como condição de sucesso o estabelecimento inicial de uma “empresa âncora” (tipicamente um player muito relevante no sector em causa) que funcione como farol e que sirva como exemplo na captação de investimentos futuros. A este respeito veja-se, por exemplo, o caso da Irlanda que começou a trilhar este caminho com um pequeno investimento da IBM no início dos anos 80, sendo que, actualmente, tem instalado no seu território um número muito significativo “dos gigantes” americanos da área das tecnologias (e.g. Google, Linkedin, Facebook, Amazon). Assim, como factor crítico na persecução desta ideia, devem ser envidados esforços para conseguir captar o investimento âncora referido (uma AutoEuropa das novas tecnologias).

–Nuno Abrantes.