O Uso da Tecnologia no Ensino

A utilização de tecnologia no ensino tem-se revelado cada vez mais imprescindível, mas deve ser pensada num sentido mais lato, que vá além das tecnologias de informação e comunicação (TIC) e da interação professor/aluno via internet. Grande parte dos professores e alunos, nos ciclos mais avançados de estudos, já utilizam “e-readers”, “tablets”, “laptops” ou “smartphones” com inegável capacidade para editar texto, manipular imagem e som, elaborar cálculos, previsões e simulações complexas, gerir tarefas e projetos, difundir informação, entre muitas outras potencialidades.

Grande parte das universidades nos países mais desenvolvidos têm-se confrontado com a necessidade de reforçar a sua oferta educativa online. Esta necessidade advém de fatores diversos que vão desde a maior rapidez dos processos de difusão e mudança tecnológica; a  pressão para obtenção de receitas pelas universidades, o crescente número de pessoas a ingressar no ensino superior ou aumento do número de estudantes em part-time. Trata-se de uma mudança sociocultural que vai exigir uma oferta muito sofisticada e de qualidade pelas instituições de ensino e a criação de uma regulação e intervenção adequadas por parte dos Governos.

No entanto, para além destas aplicações mais visíveis, é necessário sublinhar o papel desempenhado pela tecnologia nos domínios da instrumentação, equipamento técnico e laboratorial em áreas das ciência da vida, biotecnologia, eletrónica, entre outras, facilitadoras também do trabalho ao nível pedagógico e científico. Para além das plataformas digitais de ensino à distância, ferramentas multimédia e de realidade virtual (“Google Glass”, “Oculus Rift”, interação online com “avatares” de figuras históricas e pensadores conhecidos, por exemplo),  equipamentos de prototipagem e impressão 3D, “fab labs” e os jogos de computador (“gamification”) terão um papel cada vez mais preponderante no ensino de várias disciplinas. Metodologias de “machine learning”, análise de conteúdo, visualização gráfica ganharão também relevo. Algumas destas abordagens demonstram grande potencial no que respeita ao ensino de indivíduos com necessidades especiais.

A ideia de um ensino integralmente assente no uso de tecnologia (por exemplo o desaparecimento da sala de aula física e do contacto presencial) talvez venha a materializar-se num futuro mais longínquo, caso a nossa relação com o mundo passe a ser exclusivamente mediada pelas tecnologias de informação e comunicação e a nossa “identidade digital” se sobreponha ao nosso “Eu” tangível. Porém, mais do que tentar prever tendências de mudança tecnológica a muito longo prazo, julgo ser importante equacionar já, no curto-prazo, um modelo em que os dois tipos de ensino – presencial e à distância – se possam complementar com eficácia. Ainda que a tecnologia facilite o conhecimento explícito e formalizado, o conhecimento implícito é fundamental: o “aprender-fazendo”, a orientação de proximidade, a discussão, o posicionamento crítico, a disponibilidade e a relação pessoal entre os intervenientes no processo são elementos que podem ser diferenciadores e proporcionar uma educação de maior qualidade.

No futuro, as TIC reduzirão cada vez mais as assimetrias de informação entre o professor e o aluno. É, sem dúvida, uma vantagem o facto de os alunos terem mais meios para pesquisar, validar, questionar, exemplificar, discutir ideias com o professor e este, por seu lado, ver o seu trabalho mais escrutinado e ser forçado a melhorar continuamente os seus padrões de criatividade, exigência e empenho. A tecnologia pode ser fundamental na criação de um ensino autónomo, adaptativo e personalizado. Por outro lado, potenciais desvantagens serão, por exemplo, a adoção excessiva de meios digitais e o seu uso subversivo, como forma de controlo e homogeneização do saber, bem como uma ilusão de autonomia total que leve à desresponsabilização do aluno e do professor no processo educativo.

Em Portugal registaram-se alguns avanços muito positivos na última década no que respeita à criação de um contexto propício ao uso da tecnologia na área da educação. Destacam-se, por exemplo, a modernização de infraestruturas informáticas, sistemas de intranet e plataformas de gestão administrativa das escolas e universidades; o acesso livre às mais importantes bases de dados de artigos científicos internacionais revistos por pares e o estabelecimento de programas de intercâmbio com algumas das melhores universidades do mundo, onde alunos e professores podem aceder a meios tecnológicos mais sofisticados e experimentar dinâmicas de ensino e aprendizagem diferentes. É necessário que o contexto institucional e as infraestruturas tecnológicas existam e funcionem, para que a adoção de ferramentas inovadoras de ensino possa ser adequada.

Apesar de o cérebro humano se manter fisicamente semelhante ao longo dos séculos, acredito que, independentemente das suas vantagens ou desvantagens, a tecnologia tenha vindo a mudar as nossas ligações neuronais, a forma e a rapidez como procuramos e tratamos a informação, como estimulamos a nossa memória, como aprendemos e como ensinamos. Há ainda, no entanto, um longo caminho a percorrer no sentido de investigarmos os múltiplos impactos destas metodologias no desenvolvimento cognitivo dos indivíduos. Complementarmente, urge perceber melhor que atores sociais se devem mobilizar e que políticas públicas devem ser desenvolvidas para que o impacto da tecnologia na educação possa ser um processo inclusivo e eficaz.

– Miguel Amaral