PARA QUE SERVE O PATRIMÓNIO?

Num tempo de fracas capacidades de investimento como aquele que atravessamos, a potenciação de recursos pré-existentes revela-se uma opção inteligente, com mais fortes possibilidades de garantia de sustentabilidade e, também, com uma capacidade de geração de retorno mais rápida. Nesse sentido, o património cultural, pré-existente, já construído ou criado, é claramente um recurso a ter em conta nesta nova dinâmica económica que experienciamos.

Acresce que o património cultural, pela sua natureza, comporta dimensões extremamente valiosas na perspectiva do desenvolvimento integrado e sustentável do país: a sua disseminação regional, cobrindo a totalidade do território; a sua diversidade tipológica (património arquitectónico, etnológico, gastronómico…) permitindo criar produtos muito diferentes entre si, entre regiões, mas eventualmente complementares do ponto de vista da experiência turística do país no seu todo; a sua fortíssima carga emocional gerando fenómenos de empatia quer por parte da comunidade residente (potenciando programas de sensibilização patrimonial), quer por parte dos consumidores do recurso (devendo-se, neste campo, ter presente a importância da componente afectiva em todas as experiências turísticas de hoje em dia).

Importa assim perguntar de que forma se podem capitalizar estas características e os últimos números a elas associados[1], por forma a gerar mais riqueza no território, melhor preservação da nossa herança cultural e aumentando o equilíbrio regional do país.

No campo do Turismo-Cultural, é de facto fundamental ter uma atitude pró-activa relativamente ao recurso: percepionar o património como um produto completo, obedecendo consequentemente a todas as regras de concepção, comunicação, distribuição, comercialização e permanente inovação que um verdadeiro produto tem de seguir, revela-se imperioso para ultrapassarmos este estado de herança passiva no qual continuamos, em parte, a viver[2].

É nesse sentido que é imperiosa e urgente a definição de uma Estratégia de Turismo-Cultural potenciando, efectivamente, todo a diversidade, riqueza e atractividade dos recursos endógenos culturais e naturais de Portugal: a ausência desse “casamento” tem sido um obstáculo à sustentabilidade do sector do património e ao aumento de diversidade da oferta no campo do turismo.

Por outro lado, e directamente relacionado com este ponto, está a imprescindível disseminação do conhecimento sobre o património do país junto dos cidadãos de Portugal: apenas 14% dos visitantes de Monumentos, Museus e Palácios são visitantes nacionais[3]. Este número aflitivo deve obrigar-nos (a todos quantos trabalham neste campo, independentemente de provirem do sector público ou privado) a contribuir de forma particularmente urgente e activa para a definição de uma Estratégia de Educação Patrimonial. A Cultura deve assim unir-se igualmente à Educação, promovendo uma revolução suave como aquela que vivemos, nas últimas duas décadas com o Ambiente e a interiorização da necessidade de reciclar, poupar recursos – ideias que se transformaram em comportamentos, totalmente integrados no dia-a-dia de cada um de nós.

A implementação desta Estratégia de Educação Patrimonial permitiria assim, num horizonte de 20 anos, ter os adultos de então a conviver com o património como algo de absolutamente normal, banal mesmo – no melhor sentido da palavra –, sem qualquer perda de noção do seu significado e valor único.

A conjugação destas duas acções – Estratégia de Turismo-Cultural e Estratégia de Educação Patrimonial –, ambas com resultados a médio e longo prazo, permitiriam garantir sustentabilidade para o património que todos herdamos ao nascer neste país. Ou seja, permitiriam garantir que o mesmo é fonte efectiva de conhecimento, de identidade e de geração de riqueza, em particular, para os cidadãos de Portugal. E é justamente para isso que serve o Património: que outro recurso endógeno pode afirmar o mesmo?


[1] Cf. Augusto Mateus e Associados, Sector Cultural e Criativo, GEPARI, 2010.

[2] O consumo do património integra-se num mercado concorrencial como a ida ao Centro Comercial, ao Cinema, aos Espectáculos ao Vivo e outras formas de entretenimento cultural e de lazer disponíveis. É um erro pensar que o consumidor de património está alheado dessas outras ofertas e não valoriza questões tão simples como a garantia do serviço (conseguir efectivamente entrar na fortaleza, no palácio, na igreja), qualidade do serviço (horários costumer friendly, perceber o que vê com explicações escritas ou orais verdadeiramente dirigidas a leigos), infra-estruturas de apoio funcionais e apelativas (wc, cafetaria, loja).

[3] Estatísticas de Visitantes de Monumentos, Museus e Palácios da DGPC – Sumário Executivo, 2012, DGPC (http://www.imc-ip.pt/Data/Documents/Recursos/Estatisticas/2013/Estatisticas_visitantes_DGPC_2012[1].pdf)fotografia